O check-up deste ano teve um sabor diferente. Não pela bateria de exames ou pela espera na sala branca, mas pelo debate inusitado que travei com o cardiologista. Pela primeira vez, não perguntei se meu coração estava bem, perguntei qual seria o volume ideal de corrida (não para provocar, para me certificar).
Ele hesitou. Eu insisti.
Confesso que cometi uma pequena injustiça: cobrar de um cardiologista generalista uma resposta que, na verdade, cabe ao médico do esporte. Mas o que fazer se a consulta era com ele e a dúvida sempre me intrigou, quando ainda corro com mais de 60 anos e volumes grandes? A base dos estudos é a mesma, os livros são os mesmos, mas a aplicação prática… ah, essa é um abismo. Para o clínico geral, o coração é uma bomba que não deve ser exigida além da conta. Para o atleta amador, ele é um músculo que pede desafios.
A discussão, claro, girava em torno de uma pergunta traiçoeira: qual é o volume ideal?
“Difícil dizer, mas não pode passar de 10 km”, ponderou ele, folheando meus exames.
Discordo do que ele quis dizer com 10 km. Aprendi, na prática dos treinos, que o volume ideal não está nas tabelas, mas nas entrelinhas do corpo. É subjetivo. A percepção da corrida são os quilômetros que são superados sem xingar a vida, a frequência cardíaca que aumenta sem susto e desce com alegria, o bem-estar que toma conta do corpo.
Tentei explicar que a consistência ensina mais que qualquer fórmula. Que aumentar o esforço em 10% por semana – para quem começa – é um acordo que fazemos com os músculos, uma negociação silenciosa para que eles entendam o que está por vir.
Mas o médico balançou a cabeça. Para ele, o esforço é uma equação universal. Para mim, é uma assinatura pessoal.
Foi então que percebi que estava certo: não existe um volume ideal. Existe o volume que cabe em mim, na minha recuperação, no meu batimento, no prazer que sinto ao amarrar o tênis. O praticante de corrida e não o ‘garmin (relógio)’ é quem dita a régua. Respeitados os sinais do corpo (o cansaço que ensina, a dor que alerta, o bem-estar que recompensa), o volume é apenas uma consequência.
Ao final da consulta, ele receitou que diminuísse o volume dos meus treinos . Eu, em silêncio, receitei a mim mesmo mais cinco quilômetros no domingo.
E está tudo bem. Cada um com seu volume.





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