Meu cotovelo já está calejado de tanto apoiar no balcão dos bares, fruto, sem contar a cerveja, lógico, das prosas sobre felicidade e qualidade de vida. Escuto de muitos, nessas horas, que aproveitar a vida é fazer o que dá muito prazer. Outros dizem que beber é aproveitar a vida. Como um balcão de bar é apenas um balcão, fico mais aliviado em escutar certas tolices.
Para não ficar deslocado e mudo, uso metáforas para expressar minha opinião. Nos meus tempos de judoca, passei por uma fase difícil: sofri uma luxação de ombro, quando o ombro “cai” e se “desconecta” do restante do corpo. As dores eram insuportáveis, e a sensação da ausência de um membro é terrível. Passei um ano, antes da cirurgia, luxando o braço semanalmente por causa da frouxidão ligamentar.
Pois era assim, dizia eu aos meus colegas de bar: enquanto nos sentirmos desconectados da sociedade — como eu me sentia quando meu braço luxava —, carentes de pertencimento, ficaremos distantes da autonomia individual e da realização social. Só estaremos realizados e felizes se estivermos integrados, participando ativamente do meio que nos rodeia e criando um significado para a existência.
Bruce Perry, autor renomado sobre o tema, afirma que o deslocamento social, juntamente com o trauma pessoal, é uma poderosa fonte de disfunção mental, desespero, dependências e doenças físicas.
Eu posso concluir com outras palavras: o deslocamento social dói mais que uma luxação de ombro.





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