“Professor, como os cegos fazem conceitos das cores?” Ou também: “Como será que um cego interpreta a lua?” Essas perguntas inevitavelmente surgem em todo encontro em que o assunto é cegueira. Como a resposta é difícil, sempre oriento que tais perguntas sejam endereçadas aos próprios cegos.
V. S. Ramachandran, no clássico Fantasmas no cérebro (Record, 2010), apresenta um conceito que pode dar pistas sobre essas representações: o enigma dos qualia. Qualia significa simplesmente a impressão crua e tosca de sensações – a qualidade subjetiva da dor, do vermelho ou do nhoque com trufas. Em outras palavras, qualia podem ser definidos como aspectos do estado do meu cérebro que parecem tornar a descrição científica incompleta – do meu ponto de vista.
Um relato em terceira pessoa nunca será uma informação coerente, pois quem não enxerga precisa interpretar a informação, e cada um faz isso do seu jeito. Todos nós, vendo ou não, criamos a nossa própria realidade a partir de fragmentos de informações. O que você vê, ouve ou percebe nem sempre é uma interpretação acurada e confiável.
Como dependemos de informações e percepções armazenadas, ou seja, do nosso meio ambiente, para formar conceitos, vale a máxima: quanto mais experiência visual, auditiva e háptica, mais recursos teremos para nos aproximar de uma compreensão mais rica do mundo.





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