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O universo de cada criança

O último mês, especialmente, tem sido um pouco difícil para mim. Relatórios, fichas, registros sobre a aprendizagem dos alunos que parecem não ter fim. Pilhas de papéis que precisam ser preenchidas, organizadas, entregues, e que, às vezes, me fazem pensar se alguém realmente lerá tudo aquilo.

Enquanto isso, o tempo para aquilo que considero essencial vai ficando menor: pensar nas crianças, preparar uma aula diferente, pesquisar alguma coisa que possa despertar curiosidade, inventar.

Acho que por isso aprendi a confiar também no improviso. E, devo admitir, me cai muito bem.

Às vezes, uma aula de Ciências simplesmente acontece. Nasce ali, naquele instante, a partir de materiais que já estavam na sala, esperando que alguém os descobrisse, de uma pergunta inesperada ou de alguma observação feita por uma criança. Uma coisa leva à outra e, quando percebo, estamos todos investigando alguma coisa que não estava escrita no planejamento.

Alguns talvez chamem isso de desorganização. Há quem acredite que uma boa aula precisa estar inteiramente prevista antes de começar. Eu prefiro chamar esses momentos de aulas de descoberta.

E tivemos muitas delas este ano.

Fizemos poesia e ouvimos música da melhor qualidade. Observamos pequenos animais no microscópio. Viajamos pelo Sistema Solar e fomos ainda mais longe: imaginamos supernovas, estrelas morrendo e buracos negros. Tudo isso sem precisar de uma tela diante dos olhos. Bastaram a palavra, a escuta, a imaginação e aquela curiosidade que as crianças ainda carregam tão naturalmente.

Digo “fizemos” porque não sinto que essas aulas sejam inteiramente minhas.

Eu escuto o que as crianças dizem, suas perguntas, seus interesses, as coisas estranhas que aparecem no meio de uma explicação e parecem não ter relação nenhuma com o conteúdo. Muitas vezes é justamente dali que nasce a aula.

Acredito muito no poder da escuta em sala de aula.

Uma criança pode ter dificuldades para ler, escrever ou realizar determinados cálculos e, ainda assim, saber coisas extraordinárias sobre animais, planetas, dinossauros, música ou qualquer outro assunto que tenha despertado seu interesse. Crianças autistas, crianças com TDAH, crianças que aprendem de maneiras diferentes, quando seus saberes são reconhecidos e elas percebem que também têm alguma coisa para ensinar, algo muda. Elas levantam a mão, querem falar, arriscam respostas.

E, pouco a pouco, parecem descobrir que aquele também é um lugar onde podem existir sem que sejam definidas apenas pelo que ainda não conseguem fazer.

E nesse movimento de escuta e troca, eu também revivo constantemente a minha própria infância.

Hoje, dando andamento à minha pesquisa de mestrado sobre autismo e conversando com alguns participantes, aconteceu novamente. Em determinados momentos, eu me vi tão inteiramente naquelas pessoas que foi difícil separar a pesquisadora da mulher que as escutava.

Reconheci dores, alegrias, dificuldades e potencialidades. Reconheci maneiras de estar no mundo que durante muitos anos eu mesma não soube nomear.

E, por alguns instantes, tive uma sensação estranha, era como se eu pudesse vislumbrar, através daquelas histórias, não apenas aquilo que vivi, mas também aquilo que poderia ter vivido.

Não gosto de imaginar outra vida para mim. Tudo o que me aconteceu, de alguma maneira, participou da formação de quem sou hoje. Mas reconhecer isso não me impede de pensar em quanta dor poderia ter sido evitada se, em algum momento da infância, alguém tivesse olhado com um pouco mais de atenção para aquilo que estava fora da curva.

Acredito que também seja por isso que eu olhe tanto para essas crianças. Porque sei que, às vezes, aquilo que parece desinteresse é outra coisa. Aquilo que parece distração pode esconder um pensamento inteiro acontecendo em outro lugar. Aquilo que parece inadequação talvez seja apenas uma maneira diferente de perceber o mundo. E uma criança não deveria precisar passar anos tentando descobrir sozinha por que parece tão diferente das outras.

Não podemos mudar todas as coisas. Professores sabem disso muito bem. Não conseguimos corrigir todas as injustiças, alcançar todas as dores ou impedir todas as experiências difíceis que nossos alunos ainda encontrarão.

Mas podemos olhar, escutar. Podemos dizer: “Eu vi o que você fez.”

Podemos nos interessar genuinamente por aquilo que uma criança tem para contar. Podemos oferecer uma palavra, um abraço quando desejado, um lugar seguro, algum aconchego.

Pode parecer muito pouco. Hoje, penso que talvez não seja.

Há uma frase de Saramago à qual volto algumas vezes. Em A Segunda Vida de Francisco de Assis, Clara diz:

“Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu fizeram-no de carne e sangra todo dia.”

Num mundo em que tantas pessoas parecem ter aprendido a não se comover, ainda quero que algumas coisas me atravessem. Quero continuar me emocionando com uma criança que finalmente consegue ler uma frase, com outra que me conta uma descoberta como se tivesse acabado de desvendar um mistério do universo, com uma pergunta que desmonta completamente a aula que eu havia imaginado.

Minhas melhores aulas não vem das fichas, dos relatórios, nem dos planejamentos perfeitamente preenchidos. Mas desses pequenos instantes em que alguém pergunta alguma coisa, outro alguém escuta, e juntos descobrimos um caminho que, cinco minutos antes, nenhum de nós sabia que existia.

Do blog: Enquanto Atravesso – Bruna Rissato

out 1, 2026Carlos Mosquera
Não enlouqueci, ainda.

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Carlos Mosquera
1 de outubro de 2026 Uncategorized
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