Esse tal modelo que aplicamos desde o nascer até a morte nunca foi muito bem explicado. Refiro-me aqui às condutas que são difíceis de provar. Diferente, por exemplo, da pergunta clássica: por que o movimento de rotação da Terra não provoca desequilíbrio em nossas vidas? Isso há muito já está explicado, o suficiente para entendermos que tudo segue na mesma direção — oceanos, ar da atmosfera, construções, tudo, na mesma direção e velocidade. Eis a razão da nossa aceitação em não cair.
O cérebro faz suposições o tempo todo, como explica o neurocientista David Eagleman, sobre o que vemos com base no seu modelo interno, formado em anos de experiência andando pelas ruas de outras cidades. Cada experiência que você teve contribuiu para o modelo interno em seu cérebro. Numa outra perspectiva, o mesmo se aplica aos cegos: mesmo não “vendo” o mundo, o modelo interno também ajuda a estabilizar as projeções do que percebemos. A compensação dos órgãos dos sentidos é necessária para que ocorra também o tal modelo na vida de pessoas cegas. Uso a experiência dos cegos para continuar esse assunto.
“Em vez de usar os sentidos para refazer constantemente a realidade a partir do nada em cada momento, você está comparando informações sensoriais com um modelo que o cérebro já construiu, que é atualizado, refinado e corrigido.” Os cegos também comparam informações, usam memórias para resolver situações do ambiente. Lógico que esta construção, comparada com a de pessoas que enxergam, é mais demorada e elaborada — pode-se até afirmar que o córtex visual, em pessoas cegas que não usam essa área para interpretar imagens, é compensado para armazenar informações desse modelo interno. A natureza soube readaptar a neurofisiologia cerebral de tal jeito que pessoas cegas com muitas experiências de vida conseguem “naturalizar” percepções sensoriais que impressionam qualquer vidente.
Para terminar, o modelo interno permite que o mundo lá fora continue estável, mesmo quando você está em movimento. Um exemplo: quando viajamos de avião, não percebemos a velocidade; a impressão é que a aeronave está parada. Somente nas turbulências percebemos as diferenças de sentido e velocidade.
Muitas vezes, porém, o cérebro nos trai e a visão, cúmplice, confirma a mentira. Talvez seja esse o preço de viver dentro de um modelo: a estabilidade que nos salva é a mesma que, de vez em quando, nos engana.





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