- Conceito busca substituir o estigma pela valorização das diferenças
- No Dia do Orgulho Autista, celebrado nesta quinta-feira (18), quero voltar o olhar para a ideia da neurodiversidade
É uma palavra que pode soar estranha e sem um sentido imediato, mas que carrega a expectativa e o desejo de vivermos em uma sociedade mais justa —em específico, socialmente mais justa para pessoas autistas e com condições como TDAH, dislexia, discalculia, dispraxia, transtorno de aprendizagem não verbal ou questões de processamento sensorial ou de função executiva.
Ainda que exista uma reivindicação de construção coletiva, a história registra que o termo neurodiversidade foi sistematizado, no final dos anos 1990, pela socióloga australiana Judy Singer.
Em diversas entrevistas, Singer falou sobre a mãe, uma mulher que sobreviveu ao Holocausto e deixou a cosmopolita Budapeste da época por Brisbane, na Austrália. Segundo a socióloga, a mãe soava como uma pessoa preguiçosa, não conseguia trabalhar e simplesmente não se encaixava socialmente no novo país. E o motivo de ela ser assim, continua Singer, parecia ir além do trauma pessoal e da condição de marginalidade em que viviam na Austrália.
Depois que a própria filha nasceu e apresentou características que também destoavam do padrão, segundo conta, ela finalmente compreendeu que estava diante de três gerações de mulheres dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA): a mãe, ela mesma e a filha.
Com essa palavra, neurodiversidade —pela qual ela se desculpa de forma bem-humorada—, Singer defende que queria nomear um movimento social para minorias neurológicas, a exemplo de outros movimentos sociais de afirmação de potencias e direitos. Para ela, esse era um movimento que já existia no mundo, naquele final dos anos 1990, potencializado pelas trocas de informação entre pessoas autistas pela internet.
A neurodiversidade é, hoje, um movimento global e transversal, de afirmação de funcionamentos diferentes do cérebro, que defende que não existe uma forma correta de ser —e, portanto, não há o que ser consertado. É um movimento contra o estigma, que busca ver a diferença como potência humana, em vez de ver como um déficit.
E essa é uma revolução, se formos pensar que, 60 anos atrás, pessoas autistas de nível maior de suporte não estariam na escola regular, na fila do supermercado, nos parquinhos. Estariam onde? Possivelmente trancadas, desde os primeiros anos de vida, em hospitais psiquiátricos. Como se não existissem.
Ou estariam sendo vítimas de experiências terapêuticas nada respeitosas. De classificações de debates públicos pavorosos.
Para o dia de hoje, o de celebrar a potência das pessoas autistas, eu termino com uma explicação simples da Judy sobre a neurodiversidade: “É uma palavra chique para toda a humanidade”.
Voltam à pauta do STF (Supremo Tribunal Federal), nesta quinta (18), justamente no Dia do Orgulho Autista, as duas ADIs (Ação Direta de Inconstitucionalidade) que questionam trechos da reforma tributária que excluíram pessoas autistas de menor suporte do acesso a isenções para compra de carros novos, assunto tratado na última coluna.
Após provocação de uma leitora, trago aqui mais um ponto em favor de o Supremo rever as restrições impostas pela reforma. É de amplo conhecimento que uma pessoa autista pode transitar pelo espectro ao longo da vida, a depender das intervenções que recebe, das fases da vida (como adolescência) e dos obstáculos enfrentados pela pessoa. Ou seja, ela pode requerer níveis variáveis de suporte ao longo da vida.
Além disso, o espectro não parece ser uma linha única, reta, que leva do menor nível de suporte ao maior. Em vez disso, ele se mostra mais como um gráfico radar, em que a pessoa pode ter mais ou menos destreza em eixos diferentes: comunicação, interação social, sensorial, rigidez, etc. Ou seja, ela pode precisar mais ou menos de suporte em cada eixo.
Assim sendo, ministros do STF, a tarefa de definir benefícios a partir de um patamar fixo de prejuízos (moderado ou grave) seria como usar uma régua burocrática e ignorante para medir a teia complexa e fascinante do autismo.
Por Johanna Nublat (FSP 18/6/26)





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