Acho que foi Aristóteles, na Metafísica, quem primeiro ressaltou que o “todo” é mais que a soma das partes – é uma realidade interconectada. Foi o discurso de que um organismo só pode ser compreendido pela totalidade de suas relações. Se fizermos um esforço, essa compreensão pode explicar a própria prática do triathlon.
A sucessão de nadar, pedalar e correr, sempre em proporções próximas, é a materialização dessa totalidade que dá nome ao esporte. O triathlon é novo; chegou ao Brasil no fim dos anos 1980, repleto de expectativa. Por ser uma novidade, seus primeiros atletas eram, em geral, pessoas que já gostavam de correr e nadar, ou de pedalar e correr. Na época, não havia tanto rigor: juntava-se tudo e participava-se das competições. Ao contrário de hoje, quando o jovem já inicia no esporte mirando o Ironman, naqueles primórdios pensava-se nas “partes”. Treinava-se o que se podia e deixava para trás a modalidade menos dominada.
A consequência dessa fragmentação era perceptível no discurso dos amadores: “Se não fosse a natação, eu teria ganho essa prova” ou “Quase morri na corrida, meu desempenho foi péssimo”. Era, e muitas vezes ainda é, uma compreensão distorcida de um esporte chamado triathlon. Quando o esporte for entendido como um organismo, onde a totalidade das provas determina o resultado de um planejamento, não precisaremos mais escutar sobre as distorções do rendimento.
Talvez os triatletas devessem escutar Heidegger, que na fenomenologia propôs a compreensão do homem não como uma máquina, mas como um “ser-no-mundo”. Ele afirmava: “A existência só pode ser compreendida pela percepção da totalidade do ser, de suas vivências, angústias e seu contexto real de vida”. Parar de se ver como um “nadador”, um “ciclista” e um “corredor” em compartimentos separados para se enxergar, enfim, como um triatleta, esse é o salto tanto filosófico quanto prático.





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