Se fizermos um esforço gigante, podemos compreender algumas situações simbólicas que ocorrem neste mundial de futebol e nas participações de países em olimpíadas. Nos mundiais de futebol, nos jogos do Brasil, o país para; o mesmo não acontece em nenhum esporte olímpico. Estranho este capricho, porque sabemos que a maioria das pessoas que estão na frente da TV não acompanha o futebol no restante dos quatro anos. Nas Olimpíadas, sequer sabemos o nome dos jogadores de futebol que nos representam; em outros esportes, não há interesse nenhum em saber.
Esse fanatismo está atrelado à nossa fama de campeões, percepção imediata que nos coloca como melhores do mundo, mais poderosos, mais badalados. A representação é simbólica: se ganharmos, o mundo vai me respeitar; nos sentimos tão poderosos quanto os jogadores. No olímpico, nossa representação é de atletas puramente amadores (deriva do verbo amar); estão lá por amor e necessidade. São representantes do nosso país, mas não da população. Assim tratamos os amadores. Sim, também há atletas amadores e que ganham muito bem, mas é a minoria.
Essa “comparação” impõe um outro mecanismo de exclusão invisibilizado. Nos profissionais, ganhando ou perdendo, as vidas atléticas e financeiras continuam as mesmas, ou melhoram, se vencerem. Já nos amadores, a derrota pode significar o fim do percurso atlético. As lágrimas salgadas derramadas nos dois casos também descem em canais lacrimais distintos: nos profissionais, duram até o banho e até a imprensa sumir; nos outros, o choro vai além da derrota, perfura a alma, atinge a família e os amigos, destrói patrocinadores (quando houver) e resulta na dispensa do clube.
Nós, na frente da TV ou mesmo pessoalmente, sem sabermos, ajudamos a contribuir com essas diferenças. O dinheiro aparece quando há público, audiência; desaparece quando as arquibancadas estão vazias e a TV sumiu.
Por isso também que o sonho de muitas famílias é que seus filhos sejam jogadores de futebol e não jogadores de handebol.





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