As contradições me consolam, me acalmam. Ao preparar aulas sobre a neurofisiologia da visão, quase sempre acabo em Rubem Alves, não sei por quê. O título da postagem é de um artigo de Rubem Alves de 2004, quando ele cita o poeta Alberto Caeiro(heterônimo de Pessoa): “Sua missão seria partejar olhos vagabundos”. Tenho este texto guardado em papel até hoje; releio sempre quando percebo que meu olhar se concentra demasiadamente na vida funcional. O texto é um despertar para mudanças de olhar.
“Olhos vagabundos” corresponde a uma suspensão voluntária da percepção funcional, para Rubem Alves. Na prática, isso significa que a alma precisa de tempo para perceber seu meio, contemplar o seu redor. Esse conceito também pode ser explicado quando ativamos os modos atencionais bottom-up (neuropsicologia) – ou seja, quando olhamos sem preocupação, sem metas. Um olhar orientado por saliência sensorial, como o olhar dos poetas. O contrário, o olhar top-down, um olhar funcional que organiza categorias e estimula o córtex pré-frontal. Esse olhar que, ao final do dia, nos deixa exaustos, sem desejo de buscar novas informações.
O “olhar vagabundo” é um sistema atencional sem GPS: “anda por paisagens sensoriais sem pressa de chegar”. Com o uso incansável do celular, perdemos o olhar vagabundo, escanteamos o lúdico do olhar, a miragem do crepúsculo, o desejo de ver a profundidade do semelhante.
A complicada arte de ver, como escreveu Rubem Alves, tem cura: “partejar olhos vagabundos”.





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