“Os cientistas de fins do século XIX se orgulhavam da correção de seus métodos. Cada vez mais regidos pela razão e pelas evidências, suas pesquisas buscavam se afastar da intuição e das superstições próprias dos períodos anteriores. Freud, jovem neurologista à época, era um entusiasta dos ideais iluministas, os quais nunca abandonou.
Mas no meio do caminho da ciência havia uma pedra chamada histeria. Conhecida desde a Antiguidade, o quadro já tinha recebido interpretações que iam da circulação do útero dentro do corpo feminino à influência dos demônios. A primeira hipótese batizou o fenômeno: hystera, em grego, significa útero. Sugiro o livro Histeria, de Silvia Alonso e do saudoso Mário Fuks (2005).
Gosto de um exemplo: o paciente apresenta uma paralisia total de um braço, que se encontra como um peso morto, insensível ao calor, à perfuração, sem qualquer reflexo, mas que ‘volta à vida’ sem nenhuma explicação. Situação exasperante para um neurologista que não tem como entender a lógica entre essa paralisia e o que se sabe sobre o sistema nervoso.
Embora esteja presente em homens, foram as mulheres que levaram a fama de histéricas, enlouquecendo os doutores que não sabiam como abordar sintomas tão insólitos quanto inconstantes. Sugiro o filme Augustine (Alice Winocour, 2012) no qual vemos um Jean-Martin Charcot atônito e incansável tentando dar conta da incompreensível demanda de suas pacientes.
Daí a coragem de Freud em se perguntar a que lógica responderia esse e outros sintomas histéricos, que não a da ciência conhecida até então (…)”
Por Vera Iaconelli do livro Felicidade Ordinária





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