- Projeto Resgate Inclusivo apoia grupos vulneráveis em situações de emergência
- Iniciativa busca mobilizar empresas e governos para a prevenção e mitigação de impactos
Há quase um ano e meio escrevi por aqui sobre o mato sem cachorro que são colocadas pessoas mais vulneráveis em situações de emergência. Quem e como se salvam os velhos, as pessoas com deficiência, os que estão avariados momentaneamente e até crianças pequenas quando o bicho pega, a água sobe, o tufão arrasta a casa e a quentura levanta o fogo?
A resposta à indagação é ingrata. Poder público, polícia, Defesa Civil, voluntários da brigada de incêndio da firma farão o que der. Se for possível, leva a velha no colo, o cadeirante na lomba, rola o cego escada abaixo ou… que se agarre na mão de nossa senhora da bicicletinha na hora do aperto.
As tragédias se multiplicam e, cada vez mais, essas situações tão jocosas vão se apresentando no dia a dia. Aqui em São Paulo, sempre temi ficar preso, boiando em minha Kombi, em dia de tempestade, à espera de uma boa alma.
Agora, que temos ensaios de furacão, do nada, no meio da tarde, minha apreensão se multiplicou. Além da enchente, tem a árvore que cai, os objetos que saem voando dos edifícios, fios elétricos que se rompem, desespero por todo canto. Cadeirantes, fiquem em casa. E torçam para que ela resista.
Fiquei sabendo dia desses que, se um avião fizer um pouso em consequência de alguma anormalidade, os passageiros precisam deixar a aeronave em, no máximo, noventa segundos. Daí a necessidade de “fechar a mesinha e colocar o encosto na posição vertical”, para que nada represente um obstáculo.
Cá comigo, imaginei que, em noventa segundos, sozinho, mal consigo arrumar minhas calças que deslizam pela bumba quando me mexo demais. Será que o piloto vai ejetar meu banco? Será que os comissários sabem onde tem um passageiro que estressará a margem do tempo de resgate?
Mas, voltando ao começo dessa história, acredito fortemente que qualquer pensamento para algo bom que se coloca em um papel e faz voar pela ventania acaba chegando nas mãos ou nos pensamentos de alguém que fará mover o mundo.
Uma iniciativa inédita, fomentada pela sociedade civil, começa a provocar empresas e governos a se mobilizarem em busca de respostas concretas para o socorro daqueles que não podem se virar sozinhos na hora do aperto. E são milhões nessa conta.
O projeto Resgate Inclusivo – Pessoas com Deficiência e Eventos Climáticos quer não só pressionar por estratégias específicas para grupos vulneráveis em situações de emergência como mostrar que existem tecnologias, literatura e técnicas para que as ações sejam feitas.
Mais do que tudo isso, o grupo vai trabalhar na prevenção e na mitigação de impactos aos mais vulneráveis, até sabendo quem eles são, onde eles estão e que tipo de necessidade têm.
O mote da ação foi o que mais me comoveu. É dos direitos humanos pensar no todo, salvar a todos, amparar a todos, dignificar a vida de todos. Nem na guerra, pelo menos nos filmes, deixam-se os feridos para trás, à própria sorte.
Quando a sirene tocar, a água subir, a natureza raivosa se apresentar, nestes novos tempos, salvar a própria pele segue como fundamental, mas também é, de quem é de fé, de quem é plural, botar o colete nos que não conseguem fazê-lo ou, ao menos, alertar que a mãos ficaram soltas no relento, sozinhas.
Por Jairo Marques (FSP 23/9/25)





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