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Nova ferramenta gratuita ajuda autistas a se comunicar

  • Adapte Board flexiona verbos em português para tornar frases mais naturais
  • Projeto de pesquisador ligado à USP surge da experiência de um pai com filho autista

Johanna Nublat

Como mãe de uma criança que tem muita dificuldade de se comunicar pela fala, já gastei algumas horas olhando para pranchas de CAA (Comunicação Aumentativa e Alternativa) e buscando construir frases por meio delas. É um complexo abrir e fechar de pastas em busca de palavras, que exige prática.

A CAA é um conjunto de diferentes tipos de recursos que apoiam uma pessoa a se comunicar, seja se expressando ou compreendendo o que é dito. São ferramentas variadas, como pictogramas impressos, gestos e sinais, ou aplicativos para tablets, celulares e computadores. No nosso caso, usamos o aplicativo do TD Snap no iPad.

Nele, temos uma primeira prancha com palavras mais usadas e ícones que abrem outras pranchas, como pessoas (da família, da escola, amigos e terapeutas), lugares (gerais e de preferência) e ações.

Abrindo e fechando diferentes pranchas, vamos construindo uma frase. Depois clicamos em “falar” e uma voz diz o que está escrito ali em pictogramas.

Muitas vezes, esses aplicativos não flexionam verbos em português, custam caro ou só rodam em dispositivos da Apple —iPads que são muito manipulados durante o dia e caem ou são jogados no chão com muita frequência.

Na última semana, o vídeo de um pesquisador vinculado à Poli da USP correu o Instagram. Ele pedia ajuda. “E não é dinheiro”, ele dizia. Emanuel Santana estava promovendo uma plataforma recém-lançada por ele, dentro desse projeto de pesquisa, que avança algumas casas na comunicação pela CAA.

O Adapte Board, já disponível para uso, é uma ferramenta gratuita que pode ser usada em diferentes tipos de dispositivos. Um ponto interessante é que ela permite a flexão dos verbos em português. Assim, o que poderia ser lido pela voz do aplicativo como “eu não querer ir escola querer parque mamãe”, acaba sendo construído e lido com mais facilidade como “eu não quero ir para escola quero ir para parque com mamãe”.

Isso pode parecer um detalhe, mas a comunicação soa mais amigável e natural com essas flexões.

Outro ponto interessante da ferramenta é ter uma trilha de palavras sugeridas que vai mudando à medida que a pessoa vai clicando nos ícones. Por exemplo, após clicar em “eu”, a barra de sugestões pode oferecer “querer”, “ir”, “brincar”.

Segundo Santana, a ideia é que essas sugestões de palavras variem conforme o horário do dia e o local onde a pessoa está. Desse modo, as sugestões da manhã seriam diferentes das da noite —”bom dia” de manhã e “boa noite” no final do dia—, além de mudarem conforme a pessoa estivesse na escola, no shopping ou em casa.

Pelo acompanhamento que ele faz do uso atual da plataforma, a combinação mais popular é “eu quero comer”. E dizer “não” é mais buscado que dizer “sim”. Nas palavras dele: “As pessoas querem dizer ‘não’, mas não conseguem”. Ainda segundo ele, o objetivo é poder oferecer as palavras caderno, matemática e professor na escola e, na clínica, oferecer “não quero mais, acabou”, porque eles querem brincar.

O Adapte Board também tem um recurso que permite que cada pessoa cadastre frases preferidas e que, às vezes, são adaptadas pela pessoa para usos diferentes do original. Por exemplo, frases de filmes e desenhos usadas para expressar um sentimento que por alguma razão a pessoa associou àquela palavra ou frase (gestalts). Meu filho, quando contrariado, costuma dizer “‘s’ de ‘sereia'”, que vem de um desenho da Galinha Pintadinha; ainda não entendi como essa expressão se conecta à frustração dele.

Além de gravar a frase preferida, a prancha permite incluir variações dela, apoiando a pessoa a se comunicar de outras formas. Nessa frase do meu filho, talvez pudéssemos colocar uma variação “não gostei” ou “estou bravo”.

Ouvi Santana como se estivesse ouvindo a mim mesma. Ele disse que o filho Thiago, hoje com 17 anos, autista de nível 3 de suporte, aprendeu a usar a CAA —pela TD Snap, a mesma do meu filho—, mas que ele próprio não aprendia a manejar o sistema —como eu. Ele teve, então, a ideia de fazer um estudo de palavras no espaço-tempo. Daí veio a prancha.

O próximo passo, ele disse à coluna, vai ser oferecer o sistema em outras línguas.

Fonte: FSP

set 22, 2026Carlos Mosquera
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