Nunca entrei num hospice, nem em atendimentos para cuidados paliativos. Mesmo que considere estas alternativas dignas para um recomeço ou, se preferir, para um final. Imagino que seja muito parecido com um hospital, com atendimentos multidisciplinares.
Fui ao oráculo para me certificar da origem de hospice: deriva de hospes, que significa ‘estranho’ ou ‘hóspede’ e, posteriormente, passou a designar o ‘anfitrião’. Daí também surgiram palavras como hospital, hospitalidade, hotel e hospício. A proximidade entre hospital e hospício faz sentido, pacientes com diagnósticos terminais enlouquecem em silêncio. O silêncio voluntário não é ausência, é a forma mais íntima de hospitalidade. Pelos amigos, pela família, pela despedida.
Faz sentido a ‘proximidade’ das palavras porque não nos foi ensinado a estabelecer relação da vida com a morte, muito menos hotel com hospice. Quando doenças terminais ou mesmo a morte nos alcançam, enlouquecer é a resposta mais natural que podemos apresentar. Também posso crer que o hospice acolhe o espanto. E sim, o espanto diante do fim pode soar como loucura para quem só conhece a lógica da continuação.
Amanhã vou a um hospice, para me despedir de uma amiga, mais que isso, uma companheira de vida. Ela não enlouqueceu, nos últimos dias da semana passada, ela silenciou voluntariamente. Por mensagens oculares, despediu-se, mesmo que o corpo ainda esteja no ‘hotel’.
Aprendi com o tempo que os olhos são o último território que o corpo entrega. Se puder vou sentar ao lado dela, segurar suas mãos e sentir a vibração da emoção. Se couber mais, o silêncio! É mais sábio que o grito.





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