O check-up anual é quase uma obrigação para a classe média e rica em qualquer país. Sentimos essa obrigação (quase um clichê) de nos alimentarmos bem, praticarmos exercícios, dormirmos oito horas por dia, bebermos muita água e etcetera. Sem dúvida, o dinheiro ajuda; a partir da ‘receita’, a prevenção e a cura estariam garantidas.
Mas se essa receita é tão infalível, como gritam os coaches nas redes, não teríamos tanta gente sofrendo por aí. Muitas são as variáveis desse manual de bem-estar que não levam carimbo médico, ainda que todos busquem. Diariamente, a telinha nos oferece alguma “novidade” para não adoecer ou para curar o que já está doente. As telinhas não me provocam nada, pois não as tenho, no entanto, para muitos a coisa muda: a raiva e a aceitação são sentimentos desconhecidos.
Vamos por partes. Refiro-me à raiva tóxica, aquela que é suprimida e engolida a seco. É natural sentir raiva – nosso cérebro foi programado para isso, não há como evitá-la. O problema é quando ela se torna crônica, quando invalidamos esse sentimento e deixamos de cumprir um estágio natural da emoção para torturar nossos próprios sentimentos. É aí que a cronicidade se transforma em doença. “Não quero isso” ou “não gosto disso” funcionam, muitas vezes, como remédios, mas necessários, para a cura da raiva tóxica. Portanto, a questão não é ficar ou não com raiva, mas aprender a se relacionar de maneira saudável com os sentimentos que vêm e vão. E essa sabedoria, infelizmente, não está nos manuais; permanece obscura.
Aceitação, por sua vez, não é resignação. É o reconhecimento de que, naquele instante, as coisas não podem ser diferentes do que são. Tenho profundo carinho e respeito pelas pessoas que riem dos próprios “erros”, como se dissessem: “não faz mal, isso não importa”. E é verdade: quase tudo que fazemos pode ser refeito. Não precisa gerar sofrimento.
Gabor Maté explica a aceitação com seu conhecimento médico: “significa também aceitar quão difícil pode ser aceitá-la”. A verdadeira aceitação não nega nem exclui nenhum aspecto da realidade como ela é”.
Se a aceitação e a raiva podem ser instrumentos de cura ou apenas emoções cruas, não sei. Mas que ajudam a aliviar a alma, isso ninguém pode negar.





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