‘Nova norma cria cadastro nacional, prevê atendimento especializado e amplia diretrizes para identificação de estudantes com altas habilidades, porém, governo barra triagem obrigatória em escolas e exigência de avaliação multidisciplinar‘
Conheci muitos alunos superdotados na área da psicomotricidade e das artes. Quase todos, porém, jamais foram identificados como tal. Essa dificuldade de avaliação não compromete apenas o funcionamento da escola, mas distorce a própria realidade do aluno. Muitas vezes, nem a família reconhece o traço. Crianças com altas habilidades, por se sentirem isoladas e sem companhia para discutir assuntos de interesse específico, acabam se retraindo ou desenvolvendo quadros depressivos.
Uma das marcas comuns nesses indivíduos é o QI superior a 98% da população geral. Estatisticamente, estima-se que cerca de 5,2 mil brasileiros identificados formalmente tenham altas habilidades – sendo 2 mil crianças e adolescentes e 3,2 mil adultos. Contudo, o Censo Escolar de 2023 já aponta um número bem maior: 39 mil estudantes. E ainda assim, suspeita-se que esse contingente seja muito mais amplo, pois a imensa maioria permanece invisível. São milhares de jovens espalhados por este país imenso que passam pela escola sem que ninguém os reconheça como “diferentes”. Pior: nas escolas em geral, são rotulados como “aluno-problema”. Os números oficiais do último Censo indicam que apenas 0,5% dos alunos com altas habilidades são devidamente identificados no país.
Se houvesse um esforço coletivo e planejado, se conseguíssimos identificá-los com mais precisão e objetividade, esse grupo poderia impulsionar o crescimento das escolas e do próprio país. Pensamento crítico refinado, liderança nata e senso de justiça aguçado seriam a base para esse avanço.
É fundamental entender que essa condição do neurodesenvolvimento não se resume ao QI – só isso seria reducionista. Ela exige uma avaliação mais aprofundada, que considere o contexto educacional, uma equipe multidisciplinar, a análise comportamental e outros testes. Essa complexidade explica, em parte, as dificuldades de identificar esses jovens promissores, mas não justifica nosso atraso, ainda que existam leis e esforços que favoreçam esses procedimentos.
Vejamos alguns sinais: alunos que aprendem a ler e escrever precocemente, crianças com habilidades notáveis para o desenho e a pintura, jovens com prontidão para esportes e inclinação à liderança. Isoladamente, essas características não confirmam a condição de altas habilidades, mas sugerem um olhar mais cauteloso. Poderiam servir como uma primeira “peneirada” nas salas de aula.
Sabemos que, nesses casos, a idade biológica segue um ritmo, a cognitiva outro e o desenvolvimento emocional um terceiro. Esse descompasso talvez seja um dos maiores desafios. É justamente no período escolar que acontece a ruptura de interesses entre alunos e professores. Reconhecidos, serão incentivados; ignorados, serão estigmatizados.
A educação inclusiva cumpre esse ritual: colaborar com a identificação e o acompanhamento desses jovens talentos. Se cumprirmos as leis nacionais, seremos um país mais responsável e, sobretudo, mais inteligente.





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