- É condição humana que gera características, modo de viver, crenças, emoções e, dessa forma, não é algo que se busque uma cura ou que seja passível de cura
- Especialistas de redes sociais, que jamais visitaram um centro de reabilitação, soltam aos borbotões que é apenas fazer fisioterapia que essas pessoas melhoram
Com a popularização de discussões em torno de lesão medular, paraplegia, tetraplegia e reabilitação, naturalmente, uma série de abordagens que remontam ao tempo de quando eu tinha cabelo ganha musculatura nas falas não apenas de pessoas leigas, mas também de propagados entendidos, sabidos e conhecedores de causas pela enciclopédia Barsa.
Em um mundo que busca ser mais plural, parece interessante buscar conhecimento a respeito de pessoas excluídas, até para saber abrir portas sem que elas esbarrem em cadeiras de rodas, bengalas, cães-guias e afins.
Um primeiro conceito importante é entender que deficiência é uma condição humana que gera características, modo de viver, crenças, emoções, personalidade e, dessa forma, não é algo que se busque uma cura ou que seja passível de cura.
O que pessoas com questões físicas, intelectuais e sensoriais consolidadas costumam estar abertas é para otimizarem suas vidas com tecnologias para o dia a dia, com terapias que deem mais qualidade de vida, com medicina que alivie dores ou diminua perrengues marcantes de uma diferença.
Mesmo que uma possível nova medicação seja capaz de evitar que um “serumano” precise se locomover em uma cadeira de rodas, o trauma, o choque vivido alteraram globalmente sua maneira de enxergar e tocar a existência. É diferente de uma gripe, de um bicho-de-pé.
Pessoas que se tornam tetraplégicas, com restrição severa de movimentos em pernas e braços, ou paraplégicas, com comprometimentos abaixo da cintura, em decorrência de acidentes, violência e outras situações que afetem a medula, têm suas realidades completamente transformadas.
E o andar, que os andantes tanto valorizam, pode não ser o que mais importa. Um tetraplégico ou paraplégico perde a sensibilidade tátil, perde a capacidade de controle das funções fisiológicas, tem alterada sua condição geral de saúde e convive com alterações de toda ordem no organismo.
Via de regra, essas pessoas querem evoluir em algo, ganhar autonomia em algum aspecto. Ser tetraplégico, sem nenhum medo de errar, é um dos maiores desafios humanos. Então, mexer um braço, mexer um dedo, mexer uma mão, sentir a ponta do dedo de um pé é motivo de festa para cinco dias, não é uma banalidade, uma frivolidade qualquer.
Levianamente, cientista de botequim, especialistas só de redes sociais, que jamais visitaram um centro de reabilitação, soltam aos borbotões que é “apenas fazer fisioterapia que essas pessoas melhoram”, que é só dar tempo ao tempo que o organismo reagirá e tudo ficará chuchu beleza.
Isso é uma afronta à pessoa com deficiência e joga exclusivamente sobre ela a responsabilidade que é também social, da ciência, da medicina. É um desrespeito aos profissionais que se dedicam anos para fazer avançar a crueza de um organismo que deixou de ser convencional e não será com um “padrão ouro” que ele será normalizado.
É importante esse momento de visibilidade para um grupo social que vive nas catacumbas da exclusão, da falta de oportunidade, de entendimento e de espaço. Mas, de forma escancarada, sem nenhum pudor, querem, mais uma vez, falar “tudo sobre nós, sem nós” e ainda acharem que estão absolutamente certos sobre tudo. Letramento é fundamental nos tempos atuais.
Por Jairo Marques (FSP/2026)





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