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O que levamos da infância (ou o que trazemos dela)

Eu dirigia pela região do Tatuquara, em Curitiba.
O dia era desses sem cor, em que o céu parece cansado. Uma chuva fina insistia em cair, sem força, sem pressa, como se estivesse apenas cumprindo tabela.
Até que, quase por acaso, vi.
Numa praça perto de onde moro, crianças se divertiam num campo de futebol completamente alagado. Não jogavam bola — jogavam o corpo. Corriam, escorregavam, caíam na água rasa e levantavam rindo, como se o mundo ali fosse exatamente do tamanho certo.
Aquilo me atravessou como um déjà-vu.
Corri em casa para buscar a câmera, numa tentativa quase instintiva de guardar o que eu sabia que já não se vê com tanta frequência.
E junto com a imagem veio a pergunta, difícil de ignorar:
o que aconteceu com as crianças de hoje?
Hoje, a infância cabe na palma da mão.
Desliza o dedo, muda a fase, reinicia. Tudo acontece sem sujeira, sem tropeço, sem corpo. O jogo termina e nada fica no chão — nem marcas, nem histórias. Há silêncio demais para quem ainda deveria fazer barulho.
Naquele campo encharcado, era diferente.
A chuva não era um incômodo.
Era um convite.
Bastava o céu ceder um pouco e o chão responder em poças para que o espaço virasse território livre. Não havia autorização, não havia medo de sujar a roupa, não havia essa urgência estranha de voltar limpo para casa. A infância aceitava a lama como quem aceita um abraço: sem perguntas.
Naquela água rasa — mistura de areia, riso e desequilíbrio — aprendia-se muito mais do que se imagina. O corpo caía, levantava, escorregava outra vez. O joelho ralado virava medalha. A roupa molhada, prova de um dia bem vivido. A alegria não precisava de explicação, nem de registro. A memória dava conta.
Brincar era um exercício de mundo.
Corríamos porque o corpo pedia. Gritávamos porque o tempo era nosso. Dividíamos o espaço sem telas, sem fones, sem algoritmos dizendo o que sentir. A rua ensinava a esperar, a perder, a ganhar, a cair junto. A poça d’água nos preparava, sem que soubéssemos, para dias mais profundos — para o improviso, para o risco, para o riso que nasce do erro.
Não é nostalgia vazia.
É constatação.
Aquela infância molhada nos ensinava a lidar com o imprevisto, com o desconforto, com o outro. Ensinava que nem tudo está sob controle e que, às vezes, a gente cai de propósito só para ver a água espirrar mais alto. Talvez por isso suportássemos melhor as tempestades de agora.
O que levamos da infância não são as fotos — são os gestos.
O impulso de correr sem saber onde dá.
A coragem de se sujar sem medo do julgamento.
A alegria que nasce do chão, não da tela.
E o que trazemos dela, quando ainda conseguimos, é isso:
a memória do corpo livre,
a certeza de que a vida não acontece em superfície lisa,
e a saudade de quando uma simples poça d’água era suficiente para nos ensinar quase tudo.

Foto e texto de Ricardo Marajó

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Carlos Mosquera
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