Não sei muito bem o porquê, mas acordei pensando no imponderável (Ah, Nelson Rodrigues), em Franz Gall, talvez influenciado pela genialidade de Messi. Tampouco sei se faz sentido, mas Gall é lembrado quando o assunto é cérebro. Foi um médico e neurologista alemão do século XVIII (1758) que criou um método, a frenologia. Franz afirmava que a personalidade e as características individuais de uma pessoa poderiam ser determinadas pela forma e tamanho de seu crânio. Foi um dos primeiros cientistas a estudar o cérebro de forma sistemática. No campo da psicologia e da neurologia, a frenologia teve uma repercussão enorme e durou muito tempo.
Se as funções específicas do cérebro estudadas por Gall eram a base do conhecimento da época e respeitada pela maioria dos estudiosos, hoje não passa de pseudociência, mesmo que ainda tenhamos vestígios desse período científico. Mas o que me intriga não é o erro de Gall, e sim a persistência de suas perguntas. É duro de aceitar, mas sabemos, por estudos atuais, que bebês que enxergam bem passam mais tempo olhando com atenção para rostos mais bonitos do que para outros. Por que essa estética da beleza? A simetria pode ser uma justificativa, mas sozinha é pouco. O que levaria um bebê a permanecer mais tempo que o normal para admirar um rosto? Se pensarmos em Gall, voltaríamos a Gall, e à tentação de achar que há algo no crânio, nos ossos, que dita nossa admiração.
Contudo, a beleza de um rosto e a beleza de um gol de Messi são imponderáveis de naturezas distintas. Para apreciar as jogadas do argentino, não precisamos nos reportar às teorias do século XVIII, porque as variáveis condicionamento físico e tático ajudam a explicar o talento. Há ciência no chute, ângulo nos olhos, cálculo na corrida. Mas há também algo que escapa: a imprevisibilidade, a poesia, o instante que nenhum crânio poderia prever.
E acordar pensando em Franz Gall, justamente num dia em que o mundo parece tão explicável, talvez seja o único gesto realmente científico que me resta: aceitar que, mesmo com todos os mapas do cérebro, ainda há mistérios que só um gênio em campo — ou um bebê diante de um rosto — conseguem compreender. E nem as teorias recentes, nem as do século XVIII dão conta disso. Porque o imponderável, meu caro Gall, não cabe em crânio algum.





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