Grimag

  • HOME
  • Sobre
  • Informações
  • Saúde
  • Livros / Poemas
  • Esportes
  • Notícias
  • Contato

Os emocionantes encontros com o cadeirantinho do meu prédio

  • O Jonas me vê, eu não via ninguém para planejar sonhos futuros; e que falta faz uma imagem de alguma semelhança
  • O Brasil é cheio de leis que determinam acessos universais em lugares coletivos, mesmo assim, moradias seguem sendo erguidas como castelinhos de blocos coloridos

Jonas mudou faz pouco tempo lá para o meu condomínio e nem somos muito próximos. Todas as vezes que nos cruzamos por um canto ou outro do condomínio, porém, o ímã de nossos olhos não titubeia. Na minha cabeça, o molequinho, que é cadeirante, diz ao mundo diante da minha torta imagem: “E num é que é possível?!”

E tem mais, Jonas é fisicamente igual a mim quando menino, que também já era montado em quatro rodas. Tem uns cabelos pretinhos, um jeito espoleta, uma vitalidade alheia a todas as intempéries que a vida lhe deu e que, no olhar dos outros, são multiplicadas várias e várias vezes.

Minha casa é dessas que a gente compra e casa com o banco para todo o sempre. A vantagem, embora seja mais lei que uma vantagem, é que como foi comprada na planta, pude acompanhar e cobrar cada centímetro da estrutura de acessibilidade ou da falta dela.

O resultado é que por aqui tudo funciona bem. As portas são amplas, os espaços são planos e o síndico acabou de reformar um banheiro lá dos fundos, numa área de lazer, para ser viável para o uso de todos. Até a piscina tem elevador, o que poderia ser lido como um luxo, mas que na língua de uma humanidade evoluída se chama dignidade.

Foi na piscina, inclusive, o meu último encontro com meu colega de rodas. Ele acaba de aprender a nadar com a mesma professora que me ajudou a perder um pouco da pança, a mexer meu esqueleto nas águas.

O Brasil é cheio de leis que determinam que acessos universais em lugares coletivos são obrigatórios, afinal, até a Inteligência Artificial sabe que para além das pessoas com deficiência, o país envelhece, as crianças precisam de caminhos facilitados e exclusão é cafonice. Mesmo assim, moradias seguem sendo erguidas como castelinhos de blocos coloridos.

Digo isso tudo porque é gostoso, para dizer o mínimo, ver o Jonas tocando sua cadeirinha, toda feita sob medida e de acordo com suas necessidades, aqui pelo parquinho, livre e podendo desfrutar de sua infância, como teria de ser mesmo.

Meu tempo de menino foi duro. Eu tinha um cadeirão desengonçado, desses que se encontram nos aeroportos ou quando você quebra o pé e vai ao hospital. A danada era confeccionada com uma lona que, ao calor sopitante lá de Mato Grosso do Sul, fervia. Eu pouco conseguia sair à rua em frente a casa, devido à areia solta e nenhuma calçada.

O Jonas me vê, eu não via ninguém para planejar sonhos futuros. E que falta faz uma imagem de alguma semelhança que indique um ou vários rumos, mesmo sua diferença sendo colocada em becos sem saída. Ele fica especialmente empolgado quando, nos nossos breves encontros na garagem, percebe que posso dirigir sozinho.

Faz falta ter alguém que varra a poeira da desinformação e do capacitismo da nossa cabeça, alguém que ajude mãos ainda pequenas a entender que, segurando firme, ninguém nos tira o direito de ser quem somos, do jeito que somos.

Torço para que o cadeirantinho do meu prédio cresça convicto de que pode tudo o que bem quiser. Se ele precisar de reforço nisso, estarei aqui, ainda que buscando, para ele e para mim, avanços de entendimento, espaços e aconchegos nesse nosso viver malacabado.

Jairo Marques (FSP 10/2/26)

fev 11, 2026Carlos Mosquera
Borges e A cegueiraA mulher da fila

Deixe um comentário Cancelar resposta

Carlos Mosquera
11 de fevereiro de 2026 Saúde
Posts recentes
  • Por que o cérebro de algumas pessoas não envelhece? 4 de março de 2026
  • A Nossa Guerra, o Nosso Espetáculo 2 de março de 2026
  • Poeminha de domingo 1 de março de 2026

Categorias

DEVANEIOS E ILUSÕES

Lembranças que podem nos ajudar a pensar em uma Escola mais plural e inclusiva.

Em Destaque
Qual o significado de atleta?
GG e eu querendo falar com Deus
Gal e Milton
Arquivos
Cadastre seu E-mail

Inscreva-se para receber as últimas novidades e publicações da página.

2019 © Carlos Mosquera