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Homens perfeitos são artigo raro

  • Serei o único que vê o salário da mulher como uma prova de amor?
  • Pela teoria da escritora Eve Simmons, sou perfeito em matéria conjugal

Chega uma idade em que temos de ser honestos conosco mesmos. Cheguei a essa idade e sou obrigado a perguntar: serei um homem perfeito?

A resposta, temo bem, é “sim”. Sou perfeito em matéria conjugal. Essa, pelo menos, é a teoria de Eve Simmons, uma autora inglesa que publicou recentemente o relato da sua triste experiência matrimonial. Para os interessados, o título é “What She Did Next” (Dialogue Books, 304 págs.). Não li, não tenciono, mas o resumo dos jornais é bibliografia suficiente.

Conta a autora que o ex-marido era um príncipe —apaixonado, solícito, companheiro, sensível. Seis meses depois, sumiu de casa sem aviso prévio. Queria o divórcio.

Eve Simmons sentiu-se enganada e perdida. Como era possível ter vivido nove anos de namoro com um estranho?

Mas depois, quando conversou com outras mulheres que passaram por traumas idênticos, rebobinou o filme da vida em conjunto e encontrou os cinco sinais problemáticos que toda mulher deve vigiar com ferocidade leonina. Que sinais são esses? Little Couto explica –e desmistifica:

1º “Ele ganha menos do que você —e isso o incomoda” – É uma praga entre os machos inseguros, afirma Eve Simmons: eles se sentem diminuídos com a carreira de sucesso da mulher.

Eu, pelo contrário, me sentiria aliviado. Sonho há vários anos viver às custas de uma. Ser, em poucas palavras, um elfo do lar: ficar em casa, com meus livros e filmes, acenando em roupão da janela para a patroa que sai cedo para trabalhar. Serei o único homem que vê o salário da mulher como uma prova de amor?

Se Eve me tivesse conhecido nos tempos de solteiro, eu jamais teria abandonado o casamento só porque a conta bancária dela era superior à minha. Abraçaria essa conta bancária com o amor e o carinho que ela merece.

2º “Ele nunca reclama”– O marido de Eve vivia sorrindo enquanto executava as tarefas domésticas mais variadas. Nunca reclamava. Um dia, por por uma questão banal, explodiu de raiva e disse à mulher o que Maomé não disse do toucinho.

Pobre Eve. Reclamar? É o meu nome do meio. Acordo reclamando do estado do corpo. Sigo reclamando do estado do mundo. Reclamo de coisas reais e irreais. E, se não tenho do que reclamar, até disso reclamo.

O ex-marido de Eve era um caso clássico de silêncio passivo-agressivo. Eu sou um caso raro de ruído ativo-agressivo. Só quando meu humor não está ao nível de Schopenhauer é que a família estranha e se preocupa. “Estará doente?”, perguntam uns. “Ele me incluiu no testamento?”, perguntam outros.

3º “Vocês tiveram um noivado longo… e um casamento grandioso”– Aconteceu com Eve. Nunca aconteceria comigo: casamentos grandiosos depois de noivados longos são cerimônias de encerramento.

Nessas matérias, sou um orientalista: o ideal era ter casamentos combinados em que noivo e noiva só se conhecem no altar. É um erro dar o nó quando a novidade já acabou há nove anos.

Pode haver surpresas desagradáveis com uma noiva que não escolhemos?

Pode. Mas prefiro o choque inicial à erosão lenta.

Casamentos grandiosos são uma contradição nos termos: a ideia da festa é receber dinheiro dos convidados, não é gastar dinheiro com eles. Além disso, nada é mais suspeito do que um amor que precisa de bufê, banda e drone para convencer os outros –e a si próprio.

4º “As mensagens de texto começam a mudar” – No início, as mensagens amorosas pingavam com frequência. Os enjoativos emojis também. Subitamente, tudo muda: a frequência, as palavras, o tom.

Não sofro desse mal. Minhas mensagens são sempre lacônicas, de preferência monossilábicas, para não alimentar expectativas. É melhor decepcionar cedo do que desaparecer tarde. O amor passa, mas um “ok” é para sempre.

5º “Vocês estão a tentar ter filhos (mas sem grande empenho)” – Eve queria ter filhos; ele se retraía; a intimidade se esvaziou.

Já eu adoro crianças. Sempre achei que o número certo fosse “mais uma”. Por vontade própria, a minha casa seria uma creche: crianças por todo o lado, cuidando da logística, enquanto a minha senhora, munida de mais um cheque gordo, financiaria a experiência.

P.S.: Só mais uma coisa. Informo o leitor romântico que a vida de Eve teve um final feliz. Segundo o jornal “Daily Telegraph”, encontrou um novo amor, casou e já foi mãe. Homens perfeitos são artigo raro, mas alguns de nós ainda andam por aí.

Por João P. Coutinho (FSP 02/02/26)

fev 2, 2026Carlos Mosquera
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