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O dia em que Lacan me salvou

Sempre achei que, se precisasse ser atendido por um psiquiatra, jamais sairia do hospital. Recentemente, num encontro acadêmico, uma colega pesquisadora me cobrou uma posição: “Por que os homens têm tanta resistência a conversar com um terapeuta?” Deixando detalhes de lado, minha resposta foi pontual: “Próprio da cultura machista”. Sobre a minha resistência pessoal, disse a ela: “É o medo de não sair do hospital”.

A colega me contou que também tinha muita resistência; sempre achou, como eu, que não precisava desse especialista. Até que um dia — após alguns dias sem falar com ninguém — resolveu buscar ajuda. Logo de cara, disse ela, o terapeuta lacaniano explicou a razão das nossas resistências: não seria um “mecanismo de defesa” a ser superado, mas sim “parte da forma como o sujeito se defende de conteúdos psíquicos dolorosos ou da ameaça de desintegração de sua imagem especular, uma defesa contra a sugestão do analista”. Concluiu ela: “Se soubermos disso, é mais fácil reconhecer que a resistência pode ser superada”.

Claro que argumentei, com o pouco que sei de Lacan, mas meu maior medo era deixar a conversa “terapêutica”, ao contrário do que esperávamos dos resultados do Seminário. Lembrei e comentei com a amiga: “Cuidado com o efeito borboleta”. Ela respondeu: “Sem caos, apenas uma conversa para fugir das banalidades”. A partir daí, o debate transcendia o Seminário e parecia uma trova galponeira com sotaque nordestino.

Sempre soube, desde minhas raras leituras de Lacan, que “a resistência é sempre do analista”. Essa afirmação de Lacan provocou um grande debate mundial, com várias interpretações. Respondi não só à colega, mas ao “público” (4 pessoas): “Ele não nega que o paciente resista, mas aponta que a resistência do paciente é um dado óbvio e esperado na condição neurótica”. Ela não me deixou nem concluir o pensamento: “Depois dessa afirmação, ainda acha que não precisa de um especialista?”

Assim acabou a conversa e quase a amizade, não por causa de Lacan, mas porque a cerveja esquentou.

dez 17, 2025Carlos Mosquera
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Carlos Mosquera
17 de dezembro de 2025 Saúde
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