Christopher McDougall autor do best-seller ‘Nascidos para correr’, talvez o melhor livro já lançado sobre corridas, inicia a obra com uma pergunta; “por que me dói o pé quando corro?” A resposta, só lendo o livro. Fiz outra pergunta quando participei de uma maratona no último final de semana: ‘Por que tanta gente resolveu correr maratonas?’ Das primeiras maratonas que corri na década de 1990, até os dias de hoje, a diferença dos propósitos é marcante. Se a tribo Tarahumara corria descalça, como informa Chistopher em seu livro, hoje em dia, nem mais a Nike é soberana, outras marcas já superaram.
Noves fora, a distância da maratona é a única semelhança entre Fidípides (490 a. C.) e os dias atuais. Se, antigamente, correr uma maratona era uma aventura, hoje é uma demonstração de ‘superação.’ No início os corredores não tinham certeza se chegariam; hoje, o celular manda buscar. Escutávamos a rua, o público sofrendo com os atletas, o choro de quem não suportava as cãibras. No último final de semana, vibrei do meu jeito, correndo por um prazer, escutando minhas próprias dores, torcendo não pela linha de chegada, mas por estar ali. Fones de ouvido e celular viraram mais um componente ‘tecnológico’ dos corredores. Relógios marcando ‘pace’ são uma obrigação, como as assessorias.
A mercadoria esporte-‘fashion’ tornou-se menos democrático, mesmo que em determinadas provas tenhamos mais de 20 mil participantes. O preço para participar dessas provas exclui uma parcela dos ‘raízes’, o sentir-se pertencido, afasta outra parte. A magia do esporte para saúde, democrático e inspirador, volta-se para o esporte do pertencimento, do elogio ao próprio self, da inspiração das imagens das redes.
Apesar de tudo isso, a maratona, como o esporte em geral, resiste à modernidade, se reinventando, formatando-se às novas gerações, um público disposto, quem sabe, tornar-se mais presencial, mais humano, como os personagens do ‘Nascidos para Correr.’





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