por Carlos Castelo
Homens com mais de 50 anos que não sabem usar IA, regozijem-se! Finalmente chegou o tempo em que a ignorância digital é considerada uma forma de resistência cultural. Não saber o que é um prompt, jamais ter conversado com um chatbot, e achar que machine learning é um termo técnico para ensinar sua máquina de lavar a separar meias coloridas, agora é um sinal de nobreza, não de atraso.
Sim, enquanto o mundo mergulha de cabeça num futuro em que até o liquidificador terá conta no Twitter-X, e opinará sobre política, vocês permanecem firmes. Uma muralha analógica num mar de telas sensíveis ao toque. E que muralha! Um paredão que ainda assiste jornal pela TV aberta, tira foto com câmera de filme e acha que nuvem é coisa que atrapalha o jogo de bocha.
A juventude de hoje vive dizendo: “Ah, eu pedi pro ChatGPT fazer meu trabalho.” Bom, no meu tempo, a gente pedia para o estagiário. Que, por sinal, reclamava menos e ainda trazia café. Agora, se você pede ajuda para uma inteligência artificial, ela te responde com uma monografia, uma planilha. E, se você insistir, até compõe um samba. Mas tente fazê-la ajudar a achar o controle remoto… Não vai. Aí você vê quem é realmente inteligente.
Mas, por favor, não me interpretem mal. Não estou afirmando que a IA é inútil. Só estou dizendo que, ao contrário de vocês, ela nunca precisou soprar o cartucho do videogame para funcionar. Isso é que é mérito. Vocês, heróis dos anos 1980, guerreiros dos anos 1990, e espectadores dos anos 2000, sobreviveram ao bug do milênio, ao Orkut e até ao tutorial de instalar impressora. E agora vêm me dizer que estão preocupados porque não sabem usar IA?
Não, nada de inquietações. Regozijem-se! Porque, ao contrário de vocês, os jovens que se entregam a essas máquinas já nem sabem o que é conversar com um ser humano. Eles mandam mensagem ao pai dizendo “Oi” e, quando o pai liga de volta, entram em pânico: “O que é isso? Ele está usando o telefone. Como… um telefone?!”
E mais: a IA ainda não aprendeu a rir de piada de tiozão. Se você diz “Você conhece a piada do fotógrafo? Ainda não foi revelada!”, o robô vai responder: “Erro 404: humor não encontrado.” Ora, meu caro Chat GPT, isso aí é clássico de churrasco de domingo! Vai estudar mais!
Portanto, homens com mais de 50, celebrem! Cada vez que um de vocês olha para um smartphone como se fosse um controle remoto de Júpiter, um algoritmo chora. E cada vez que vocês escrevem com caneta Bic num bloco de papel ao invés de ditar para a Siri, um programador tem um ataque de ansiedade.
Em um mundo onde a IA parece saber tudo, mas não sente nada, ser humanamente confuso, espontâneo, e analógico é um ato de rebeldia. E, convenhamos, é muito mais divertido errar sozinho do que acertar por sugestão de um robô.
Publicado no Estadão





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