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Por que o homem comum estupra?

Precisamos que os homens incomuns se posicionem e sirvam de inspiração para os demais

Essa pergunta parte de uma afirmação: o homem comum, aquele a quem não imputamos patologias mentais ou bizarrices, é capaz de cometer um dos crimes mais desprezíveis. É isso que os estudos antropológicos provam e que o noticiário não cansa de confirmar.

Oitenta homens comuns atacaram a septuagenária Gisèle Pelicot, dopada pelo próprio marido. Em sua maioria, eram homens como os que circulam em nossas vidas e em quem confiamos. A antropóloga Rita Segato, argentina naturalizada brasileira, que acaba de lançar “Estruturas Elementares da Violência” (Bazar do Tempo, 2025), nos dá um panorama bem claro da questão.

Torcedores dos times recifenses Santa Cruz e Sport em briga generalizada após partida do Campeonato Pernambucano
Torcedores dos times Santa Cruz e Sport brigam em Recife (PE), no sábado (1º); um deles foi vítima de violência sexual – Reprodução/Twitter

Trabalhando com populações carcerárias e como perita antropológica em julgamentos históricos de violências de gênero, ela demonstra que o estupro não é um crime sexual, mas um crime político, ou seja, uma luta por prestígio e poder encenada no corpo feminino. Feminino, aqui, não é entendido apenas como o corpo da mulher cis, mas também como tudo o que se associa a ele.

As populações carcerárias masculinas imprimem o mesmo código de poder sobre os corpos subalternizados visando estabelecer e manter a hierarquia. Estuprar outro detento é marcá-lo como sua “mulherzinha”, inferiorizá-lo. Segato aponta que a masculinidade baseada na ideia de superioridade sobre a mulher exige provas permanentes. Elas são dadas perante outros homens, por meio do domínio do corpo feminino, território a ser conquistado e mantido.

O estupro, nesse sentido, é sempre coletivo, pois se faz como interlocução com a comunidade masculina, ainda que imaginária. É uma prestação de contas aos companheiros reais e virtuais. Se a feminilidade se sustenta no cuidado —uma boa mulher é uma boa cuidadora, recatada e do lar—, a masculinidade, até aqui, tem se fiado na conquista, na competição, na usurpação. Seu protótipo é o presidente dos Estados Unidos: réu em denúncias de estupro, encanta as massas ao dizer que “A” América lhe pertence e que vai agarrá-la.

O que comemora o governador Tarcísio de Freitas na recente eleição norte-americana, cujo mote é fazer “A” América grande novamente? Uma liderança que promete manter homens como ele no poder, ainda que rendidos aos norte-americanos. Para se fazer de machão aqui, há que se submeter lá, sonhando em ser amigo do rei. Todo líder nefasto depende de um séquito que o mantém no topo, apostando na sua vez de gozar sobre o corpo do outro. Esse é um modelo que irmana os homens identificados com ele, sempre à espera de subir na hierarquia que o capitalismo perpetua.

Meninos, tateando seu lugar na sociedade, inspiram-se nessa infâmia, fundada no uso do poder sobre os demais —valor supremo da masculinidade, turbinado pelo neoliberalismo. Muitas mulheres, infelizmente, se veem capturadas por esse ideal viril, mantido às suas próprias custas. As mulheres não abriram mão de cuidar, enquanto conquistavam independência e liderança. Os homens continuaram apostando na competição e na colonização, fazendo do cuidado —de si e do outro— e da cooperação, exceções.

O homem comum abusa, manipula e estupra porque é excessivamente comum. Precisamos que os homens incomuns se posicionem, sejam valorizados e sirvam de inspiração para os demais.

Por Vera Iaconelli (FSP 03/2/25)

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