
O convite é tentador, correr 100 km em três dias, cercado por paisagens deslumbrantes. Antes de responder, fiz o cálculo dos kms por dia e achei viável e desafiador. Os convites quase sempre aparecem pela companhia, mesmo que os desafios sejam solitários.
Qualquer atividade física de longa duração, que classificamos como aeróbia, ou seja, que se recruta muito oxigênio, depende não só da vontade do participante, principalmente treino. Absorver oxigênio precisa ser aprendido, é uma técnica. E aí vem à crítica; para aprender precisa-se de vontade e rotinas, eis a maior dificuldade para os pretendentes à “fundistas”. Isso serve para qualquer atividade; ciclismo, natação e principalmente, para quem gosta de andar. Isso mesmo, os andarilhos precisam mais do que isso, precisam se “ausentar” do caminho.
Dias atrás postei uma matéria “O que acontece com o cérebro quando rezamos,” e a meditação serve como exemplo para a prática de atividades físicas de longa duração. O córtex frontal do nosso cérebro é o responsável pelo nosso planejamento e decisões de vida. O racional que nos “perturba” até nas horas de lazer. E é lógico que essa área cerebral também nos sabota; “falta muito, não vou aguentar”; “o que estou fazendo aqui?”; “preciso voltar para casa, talvez meus filhos estejam precisando de mim,” pronto, só isso basta para atrapalhar a aventura na natureza. Tanto a meditação profunda, como atividades físicas “longas” o cérebro responde com a mesma intenção. O fluxo é a principal resposta.
Se Freud já usava o “fluxo para escutar os pacientes”, podemos usar o mesmo “fluxo” para permanecer em atividades longas e solitárias. Provocar um apagão no cérebro “racional” para nos deixar em paz, também é um aprendizado e dos mais difíceis. Se ausentar de tudo que está em nossa volta e deixar “inconscientemente” o corpo se deslocar. Esse estágio da atividade física (não uso a palavra esporte porque a mesma determina resultados) talvez seja a fase mais transcendental que as pessoas podem viver. Uma abstração do próprio corpo, o não controle, um estágio de soberania, de autonomia, mesmo estando no “automático”. Precisa mais? Buscar o fluxo do inconsciente em uma atividade física, pode ser a resposta para aceitar uma corrida de 100km, mesmo que isso seja muito difícil de cumprir.
Se o fluxo não aparecer durante as caminhadas, não se incomode, só o fato de estar sozinho por alguns minutos e longe dos compromissos, já é um ganho.
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