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ODISSEIA DA TERCEIRA IDADE

Eu sempre soube que Ulisses voltaria. Os oráculos diziam, as vizinhas apostavam, e eu, por pura teimosia, mantive a esperança. O que ninguém me avisou é que ele voltaria com catarata, hipertensão e um cheiro horroroso de pomada de cânfora. O herói de Troia, o homem que enfrentou ciclopes e sereias, hoje combate o maior inimigo de todos: a própria lombar.

A cena é cotidiana, quase épica, se a epopeia fosse escrita por um geriatra. Ulisses acorda com o barulho das próprias articulações estalando. O canto das sereias foi substituído pelo alarme do remédio do diabetes das oito. E sua nova odisseia é tentar levantar da cama sem gritar “ai, Zeus!”.

De manhã, ele se queixa da coluna. À tarde, ele reclama do preço do reumatologista. À noite, ele se fala mal de mim, porque “você não entende, Penélope, o que é carregar o peso do mundo nas costas”. Pois eu entendo, sim. Carrego o peso da aposentadoria dele, das contas atrasadas e das fraldas geriátricas que compro escondida, para não ferir o orgulho do guerreiro.

Outro dia, o encontrei diante do espelho, vestindo a antiga armadura. Disse que era para relembrar os velhos tempos. O elmo não passou da testa, e o peitoral travou na barriga. Ficou parecendo uma ânfora emperrada. Juro que por um instante achei que ele fosse pedir que eu o amarrasse no mastro outra vez, mas agora, para não cair do banco da varanda.

Os velhos companheiros de guerra às vezes vêm visitá-lo. Todos eles estão aposentados também: Aquiles usa bengala, Menelau tem prótese no quadril e Ulisses, claro, se gaba de ainda ter os dentes (embora nem todos sejam originais). Ficam ali, jogando dominó, discutindo quem teve a pior guerra: a de Troia ou a com a Previdência.

E eu? Eu continuo fiando, não por fidelidade, mas porque o crochê me acalma. A cada ponto, penso: “Quem diria que Penélope, símbolo da sagacidade feminina, terminaria virando uma enfermeira em Ítaca? Mas, no fundo, há algo de terno nisso tudo. Ele ainda me chama de minha deusa, mesmo quando esquece o que veio fazer na cozinha.

Às vezes, à noite, quando o ronco dele compete com o vento do mar, penso que a vida é uma espécie de grande travessia ao contrário. Partimos em busca de aventuras e acabamos encontrando analgésicos. A glória se aposenta, mas o amor, teimoso, continua.

Hoje, Ulisses pediu que eu lhe passasse unguento nas costas e, enquanto eu fazia isso, ele murmurou:

– Penélope, ainda me esperaria todos aqueles anos?

Eu respondi:

– Depende. Você promete se perder de novo, mas desta vez pra valer?

Ele riu, achando que era piada. Mas não era.

Carlos Castelo – *Publicado no Brasil 247

dez 4, 2025Carlos Mosquera
A velha a fiar...Em algum lugar

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Carlos Mosquera
4 de dezembro de 2025 Uncategorized
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