A vida, para quem gosta dela, acontece nos recortes mais tolos
Tem gente que vive. Nasce, cresce, estuda, namora, casa, tem filhos, se aposenta e morre. Talvez só a família sinta alguma falta. E tem gente que sabe viver porque gosta da vida – são as melhores pessoas. E não se trata de colecionar destinos exóticos ou acumular experiências inusitadas. É manter a antena ligada para o simples, rir de si mesmo e tratar cada minuto como ingrediente de uma receita improvisada. É trazer à tona a vontade de dizer “sim” quando o dia insiste em convidar para o tédio, é encontrar brechas para respirar de um novo jeito.
Uma casta de seres humanos que merece medalha de honra ao mérito por transformar qualquer momento prosaico num acontecimento. Me dei conta disso, num fim de tarde, quando o motorista do ônibus soltou uma cantoria desafinada que, estranhamente, uniu todo mundo: a manicure com a sacola de uva, o economista de gravata folgada, o estudante de fone no ouvido. Não deixaram que a música aborrecesse o silêncio, embarcaram na viagem até que o destino os obrigava a interromper a comunhão. São esses que transformam inconvenientes em experiências e fazem delas lembranças. Mas não apenas de vez em quando, quando o acaso se apresenta. Mas todos os dias, quando abre a porta para a vida.
A vida, para quem gosta dela, acontece nos recortes mais tolos. Aproveita o frio no inverno, saúda as flores da primavera, gosta de banhos de chuva no verão. Tudo meio prosaico, mas uma das diferenças de quem apenas vive, e espera o verão para reclamar do calor e a folha do outono caírem para protestar contra dias gelados que ainda são só promessas. Ou seja, nada está bom.
Quem gosta de viver gosta de gente —o que parece um grande esforço para a maioria, de todo tipo, de todo credo de todas, raça, mas de preferência que goste também na mesma intensidade. Gente colorida, espaçosa na existência, barulhenta em seus afetos. Pessoal que não economiza nos sentimentos, que deixa marcas na alma, faz amigos de infância mesmo na maturidade e que está nas melhores lembranças daqueles que têm o mesmo ritmo e de outros que só assistem a vida passar.
Gente que gosta de viver se abre, se mostra, se assume. Não tem vergonha em não caber nos roteiros já estabelecidos, conta a história como quer, risca cenários cansados e escreve seus próprios atos com tinta fluorescente. Abre caminhos e leva os outros pela mão. É generosa porque sabe que a vida é partilha.
Quem gosta de viver não tem medo da morte; tem medo de passar pela vida sem ter tempo de andar em calçadas desconhecidas, conversar com estranhos, abraçar mais, dançar mais Carnavais. Sofre por amigos que ainda faria, por não passar por silêncios compartilhados, por não ter a chance de explorar as frestas do mundo em busca de poesia bruta. É gente que desafia a gravidade da rotina e acredita que o coração só cresce apertado contra o peito de outro coração.
por Mariliz Pereira Jorge (FSP – 27/7/25)





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