Por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
Descobri outro dia, folheando papéis e burocracias adiantadas, que a morte tem suas pegadinhas. Comprei a cremação, achei que estava tudo resolvido, mas esqueci da etapa anterior: o velório. Aquele parêntese entre a despedida e as cinzas. Fiquei ali, olhando para o recibo, imaginando a cena clássica — aquela sala sóbria, luz indireta, rostos marejados e um silêncio constrangedor que só é quebrado pelo pigarro de algum amigo fumante.
Parei e pensei: nada disso. Não comigo. Afinal de contas, não é qualquer um que vai embora. Sou eu.
Se é para reunir quem eu amo numa mesma sala pela última vez, que seja com a grandeza que a vida merece. Nada de tristeza contida ou frases prontas de condolências. Quero um velório com alma de roda de samba, bossa nova e tropicália. Quero Cartola lembrando que o sol nascerá, Tom e Vinícius embalando a saudade com elegância, e um samba no pé bem mansinho para ninguém esquecer que a vida foi bonita. Caetano sem lenço nem documento, Gil embarcando no Expresso 2222 e Chico perguntando: “Que tal um samba?”.
E a bandeja tem que passar farta, sim senhora. Nada daquele café ralo com biscoito de água e sal. Quero café forte, salgadinho quente, docinhos e um drinque bem servido para erguer o copo. O brinde, com tequila, sal e limão, é fundamental: à minha memória e às histórias que vivemos.
Para os mais chegados, aqueles que me conheciam de verdade e sabiam dos meus gostos, fica o recado nas entrelinhas: que levem um bom maracatu para o momento final. Na hora em que a fumaça de respeito subir e perfumar o ar, sei que faço uma viagem suave e muito bem tratada para onde quer que eu vá — seja lá para cima, para baixo ou direto para a comissão de frente.
Por fim, festa minha só é completa se o convidado levar uma lembrancinha para casa. Ninguém vai sair da minha despedida de mãos vazias ou com cartãozinho chinfrim no bolso. Vão levar uma seleção caprichada com o melhor da nossa música para ir ouvindo no caminho de volta. Porque na minha vida, até velório é uma festa.
A morte pode até ser inevitável, mas a tristeza é totalmente opcional. Se a vida foi uma crônica bem escrita, a última página não pode terminar em silêncio: apagam-se as luzes, acende-se a fumaça boa, ergue-se o copo e deixa o samba falar por mim.
Quando eu morrer,
Não quero choro nem vela…
(Fita Amarela – Noel Rosa)





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