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A crise de tolerância e o tempo de cada um

Por: Jairo Marques (FSP- 14/7/26)

  • Esperar é verbo que tende a cair em desuso no ritmo imposto hoje pela tecnologia e comprado barato pela sociedade
  • O envelhecer mexe com todos, não faço usucapião das intempéries humanas, mas os impactos no meu time alteram tudo aquilo que se acreditou ter arranjado

Nunca fui um ás na condução de minha cadeira de rodas. Sou torto quase de nascença e para coroar a vida malacabada, o meu braço esquerdo é meio barro, meio tijolo. O tempo e a prática ajudam muito a driblar os petelecos que o mundo dá nas diferenças, mas há algo que pouca gente sabe: uma adaptação que funciona bem hoje para uma pessoa com deficiência, talvez, não sirva para mais nada amanhã. Corpos com diferenças físicas cobram caro para existir dentro de algum conforto e parte dele depende de uma fatura que a sociedade resiste cada vez mais em ajudar a pagar: ter tolerância com a velocidade alheia.

Para rodar cem metros, atualmente, sinto uma mistura de fadiga, desequilíbrio e pânico. Além dos conhecidos, resistentes e onipresentes buracos das calçadas paulistanas, existem os desníveis, as rampas fora de padrão e com inclinações inadequadas. Junte-se a isso a minha própria realidade corpórea que exige mais força, mais resistência, mais atenção. Tenho frequentemente uma sensação de que o beijo no asfalto, romance tragicômico conhecido em minha trajetória, quer reapresentação em looping.

O envelhecer mexe com todos, não quero fazer usucapião das intempéries humanas, mas os impactos no meu time alteram tudo aquilo que se acreditou ter arranjado uma maneira de razoável para ser um vivente. Muda o tempo de realizar um trabalho, a forma de dormir, a forma de interagir, de dirigir, de permanecer, de namorar. Um organismo não convencional vai ter seus parafusos complexos espanados de maneira a exigir ferramentas específicas, a exigir mais tempo para engrenarem.

Bem, aí vem o mundo atual, o da velocidade acentuada para tomadas de decisão. São vídeos curtos, respostas rápidas de IA que se transformam em retornos mais rápidos ainda —e não necessariamente melhores—, a comida que chega em instantes, as vantagens que se ganha por ser veloz. Com tudo voando de forma supersônica, tolerância vira artigo de antiquário, de gente pouco antenada com a modernidade.

Esperar é verbo que tende a cair em desuso no ritmo imposto hoje pela tecnologia e comprado barato pela sociedade. Entre rápido no elevador se não a porta te espreme –e os descolados te atropelem—, atravesse logo a rua se não meu carrão que dirige sozinho lança uma buzina poderosa no seu ouvido, faça logo seu trabalho porque o vigilante espião eletrônico te entrega para a chefia, durma logo, coma a jato, pense em microssegundos.

Estamos sendo empurrados à intolerância e isso afeta, mais diretamente, a quem precisa se ajeitar para ir, olhar outra vez para seguir, reger movimentos menos disciplinados para conseguir fazer.

Temos decidido como sociedade que esperar, ter paciência, olhar com mais atenção são estratégias de perda, de derrota. O tempo, que sempre foi rei, sempre foi o senhor dos destinos, vai se tornando um opressor. Com isso, a crise da tolerância dá as mãos ao seu primo-irmão, o colapso da gentileza.

De novo, tudo caminha a restar a mim e a um punhadinho de gente diferente, ter de espremer, novamente, para caber, para se adaptar e para não ficar de fora do bonde da história atual, que está passando muito rápido.

jul 24, 2026Carlos Mosquera
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