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Nas mãos da honestidade alheia

  • Um carro batido, uma idosa morta na escada do avião; desastres de ser humano com os quais alguns humanos são obrigados a conviver em quase silêncio
  • Velhos, crianças e pessoas com deficiência costumam ser a bagagem mais pesada, aquela cujas necessidades vão sendo ignoradas para não atrasar os outros

Não foi a primeira vez que aconteceu comigo e não acho que seja luxo particular do povo quebrado, mas a sensação de estar nas mãos da boa vontade do outro, essa, sim, me parece bem personalizada.

Estava parado dentro da minha “kombi” na porta da escola, esperando a menina concluir as aulas. Rotina de várias vezes na semana. Estava entre pensar na morte da bezerra e assistir a vídeos sobre como lavar bem o box do banheiro. Um automóvel passou bem rente ao meu, tocou o para-choque dianteiro e me trouxe de volta à realidade.

O carro vacilante não era popular, muito pelo contrário, era um veículo de luxo, novo, grande e deveria até ser equipado com aqueles sensores que alertam que o motorista está prestes a fazer lambança no trânsito.

O motorista parou a poucos metros, a minha frente, desceu, olhou para o meu carro. Eu buzinei e mostrei para ele o símbolo no meu para-brisas que indica que ali tem um cabra que usa cadeira de rodas e que, demoraria um bocadinho para descer.

Eu estava literalmente nas mãos da honestidade do cabra. Não teria tempo suficiente de parar com a roda em cima do pé dele e o impedir de fugir, não teria espaço para fazer a alegação óbvia que ele estava errado nem ao menos falar que essas coisas acontecem e que ele poderia pagar meu prejuízo em três vezes sem juros. O rapaz voltou para o veículo e foi embora.

O meu incômodo maior não foi o carro raspado. Sim, eu tirei fotos e posso ir atrás de honestidade jurídica. Meu aborrecimento é algo íntimo. É estar literalmente nas mãos de alguém em diversas situações da vida para levar a vida.

Enquanto ainda amargava a atitude do rapaz que foi embora, surge a notícia que me incomodou por razão semelhante. Uma senhora de 72 anos morreu ao cair da escada no desembarque de um avião em Congonhas.

Consigo imaginar a cena: a muvuca na hora de sair da aeronave que, em São Paulo, parece a mais insana do país, as mochilas, sacolas e malas esbarrando nas costas, na cabeça, a tripulação louca para que aquilo acabe logo e os infinitos degraus à frente. Tem que descer o mais rápido possível ou vai atrapalhar os outros a ficarem parados no trânsito da 23 de maio.

A vulnerabilidade que pessoas mais velhas, crianças e pessoas com deficiência passam nos aeroportos é chocante e invisível. Somos a bagagem mais pesada que vai sendo ignorada em suas necessidades de acomodação. Vai se aceitando ser tratado de qualquer jeito para ir, para não atrapalhar, para caber.

Um carro batido, uma idosa que morreu na escada, um abandono aqui, uma violência acolá. Desastres de ser humano que alguns humanos são obrigados a conviver em um quase silêncio. Impotentes diante de não ações, não solidariedades, não facilidades, não pensamentos.

Às vezes, a suscetibilidade não está em quem envelhece, em quem usa cadeira de rodas ou em quem precisa de mais tempo para determinada tarefa. Ela pode morar em quem decide não esperar, não ajudar, não enxergar. Pode morar em quem pode fazer a coisa certa e simplesmente vai embora. Em quem tapa o olho quando está diante do que sabe que não é o correto.

Por Jairo Marques (FSP – 02/6/26)

jun 8, 2026Carlos Mosquera
Poeminha de domingo

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