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Contos infantis niilistas

por Carlos Castelo

E se os contos infantis universais fossem escritos por Schopenhauer e Nietzsche?

Cinderela aceita a transformação da abóbora como quem assina uma promoção duvidosa: desconfiada, porém esperançosa. O sapatinho de cristal é um símbolo cruel: bonito, frágil, mas impraticável para longas caminhadas pela vida. O príncipe a escolhe por pura exaustão logística. Diante de tantas pessoas vazias, qualquer encaixe adquire aparência de destino. Cinderela aceita o resultado com a serenidade de quem intui que o amor, no fundo, é apenas o Wille zur Machtvestindo roupa de gala.

Pedro e o Lobo é uma fábula sobre a fadiga coletiva. Pedro grita “lobo” porque o tédio se tornou insuportável e a atenção alheia, insuficiente. Quando o animal enfim surge, ninguém reage. A aldeia sucumbiu a um esgotamento existencial que torna qualquer ameaça apenas mais um ruído. O lobo triunfa menos pela força do que pelo cansaço acumulado.

A Pequena Sereia troca a voz por pernas guiada por um equívoco metafísico: a esperança de que a dor do outro lado seja menor. Ela persegue apenas uma nova forma de sofrer. Ao perceber que a terra firme não oferece redenção alguma, dissolve-se no mar com a dignidade silenciosa de quem reconheceu tarde demais a armadilha do desejo. 

Branca de Neve foge para a floresta e encontra ali apenas dinâmicas de trabalho abusivas. Os sete anões surgem na qualidade de arquétipos do machismo e assédio moral. O sono provocado pela maçã talvez seja o ápice da felicidade possível. O beijo que a desperta expressa a insistência impiedosa da vida em continuar.

Rapunzel vive anos na torre porque o isolamento revela-se a forma mais honesta de existência. Lá em cima, distante do mundo, desaparece a obrigação de fingir entusiasmo ou justificar sonhos. O cabelo interminável encarna o peso das expectativas: belo, porém exaustivo. A chegada do príncipe serve apenas de distração. A queda posterior ilumina: liberdade e prisão doem com intensidade semelhante, variando apenas o ritmo das latejadas.

Chapeuzinho Vermelho atravessa a floresta movida por uma lucidez precoce: ficar em casa jamais foi garantia contra o sofrimento. O lobo deixa de ser vilão; torna-se apenas uma força natural, tão inevitável quanto impostos e reuniões desnecessárias. Ao ver a avó devorada, Chapeuzinho silencia e reflete. Conclui que a moral da história jamais foi a de evitar estranhos, e sim que a vida consiste numa sequência de encontros desagradáveis disfarçados de caminho.

João e Maria andam pela floresta conscientes de que a sociedade os abandonou. As migalhas de pão são gestos simbólicos: a tentativa patética de deixar rastros de sentido num mundo onde os pássaros (metáfora do acaso) devoram tudo. A casa de doces aparece como promessa de felicidade instantânea: suspeita e irresistível. A bruxa encarna quem compreendeu antes que, num universo vazio de sentido, comer ou ser comido depende apenas da oportunidade. Quando escapam, João e Maria seguem adiante sem iluminação moral alguma, apenas mais céticos e diabéticos.

 (Publicado no Rascunho)

fev 16, 2026Carlos Mosquera
Poeminha de domingoA conta do carnaval

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Carlos Mosquera
16 de fevereiro de 2026 Informações, Uncategorized
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