O útero cria a partir do vazio”, me disse uma vez a mentora de mulheres Rita Monte, refletindo sobre a anatomia do órgão que gesta. “É a partir dessa qualidade de vazio que algo novo pode nascer”. Uau. Que bonita imagem.
Lembrei de quando a casa se esvaziou, no fim de um relacionamento, e me vi diante do espaço livre. Da sala sem sofá nem mesa. Do vazio que não era triste, era possibilidade. Um lugar finalmente passível de ser preenchido de mim, depois de tanto me apertar pra caber.
Ou das férias nas quais passei o mês todo sem ler qualquer notícia – quase uma heresia jornalística! – ou fazer um check list de lugares a visitar, porque eu não precisava colocar mais informação dentro. Eu precisava tirar.
Por isso, todo final de ano, gosto de me esvaziar um pouco. Em vez de mais, menos. Desalecerar pra deixar decantar o que fica e o que vai embora. Esvaziar armários, dar destino ao que não cabe mais. Movimentar a energia parada. Para começar um ano realmente novo, é preciso abrir espaço para recebê-lo.
É a partir desse vazio, então, que tantas possibilidades surgem. Qual sofá eu quero aqui? Qual quadro na parede me traz alegria? Como volto a ser eu mesma depois de tantas amálgamas do ano (ou da relação) que terminou? O que deste guarda-roupa realmente me traduz? O que dessa amizade me nutre e me esvazia? Como esse trabalho potencializa meus talentos ou faz escorrer minha potência desperdiçada?
Enquanto todo mundo começa a acelerar, permita-se ir mais devagar. É assim que a paisagem deixa de ser um borrão e você percebe as árvores, a vista, o avião que corta o céu. É assim que as emoções ganham lugar para falar. Em vez de mais, que tal menos?
Esvaziar não é ficar sem. Abrir espaço é se permitir criar com mais liberdade, autenticidade e amor.
Débora Zanelato (@deborazanelato)





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