Os mísseis caem perto de mim. Não fisicamente, mas na tela, na alma. Minha insônia embaralha o passado, o presente e o futuro em um único pesadelo. Ando pela casa como se fosse pisar em um “bunker buster“, evitando as janelas, me escondendo. Mas não é coragem que me falta para lutar contra moinhos de vento; é a covardia de enfrentar a “nossa guerra”. Esta que não tem front, mas tem trincheiras invisíveis.
Já faz tempo que Aldous Huxley publicou Admirável Mundo Novo. Desnecessário lembrá-lo neste momento da “nossa guerra”? Talvez não. Trago-o para esta trincheira para explicar a lógica do espetáculo. É o que vemos todos os dias, em qualquer lugar: nas guerras reais, o “entretenimento permanente” virou regra.
E é por isso que a guerra é nossa. Eis o paradoxo: enquanto nos divertimos com os conflitos alheios, o controle totalitário, denunciado por Huxley, elimina a família, o amor, a religião e a arte. No Admirável, o aviso veio com muita antecedência: os “selvagens” não podem viver nesta sociedade. A felicidade artificial pode nos cegar, levando-nos a acreditar que as bombas de lá não têm nada a ver conosco. Mas têm. A alienação é uma bomba de efeito retardado.
Um “novo mundo” é urgente. Mas não o da distopia de Huxley. Um mundo sem guerras, mais humano e, acima de tudo, mais lúcido. Que possamos, enfim, sair da trincheira.
obs: uso diariamente ‘sair da trincheira’ para denunciar os amigos que permanecem muito tempo afastados





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