A torradeira
de Carlos Castelo
Ninguém jamais acusou seu Nonato de ser um homem imaginativo. Pensava em linha reta, falava em parágrafo único e vivia como quem preenche um formulário. Casado com Dona Gisa havia tempo suficiente para ambos esquecerem como era discutir por ciúme, agora brigavam apenas por logística: quem esqueceu a luz da área acesa, quem mexeu no controle da televisão, quem pegou o último copo limpo e o devolveu ao mundo em estado lamentável.
A vida seguia tranquila, até o dia em que a torradeira resolveu se manifestar.
Era uma terça-feira sem vocação para a história. Gisa preparava o café da manhã, repetindo o ritual de sempre, quando a torradeira, objeto silencioso havia anos, resolveu cuspir o pão para fora com uma violência inédita. O pão voou. Descreveu um arco elegante e caiu no chão, manteiga para baixo, como manda a física e o pessimismo.
Gisa ficou imóvel. Não pelo pão. Pela ousadia.
Aquela torradeira nunca fizera nada além do combinado. E, de repente, agia. Tomava decisões. Expressava opinião. Gisa sentiu algo que não acontecia desde a adolescência: a sensação de que o mundo ainda podia surpreendê-la sem aviso
Nonato entrou na cozinha, tropeçou no pão e comentou, com a serenidade de quem comenta o clima:
— Caiu.
Gisa olhou para ele. Caiu, sim. Mas por que caiu daquele jeito? Onde estava a indignação? A curiosidade? A mínima vontade de filosofar sobre os insubordinados?
A partir desse dia, Gisa passou a observar a torradeira com atenção. Notou que, às vezes, ela parecia esperar. Outras vezes, cuspia o pão antes da hora. Havia ali um temperamento. Um estilo. Um risco.
Nonato, em contrapartida, continuava sendo Nonato: previsível, funcional, com tempo de reação semelhante ao de um modem antigo. Ele não lançava aos ares nada inesperadamente. Nunca.
Gisa passou a projetar no utensílio tudo o que sentia falta na vida conjugal: imprevisibilidade, energia, a sensação de que algo podia saltar da rotina sem pedir desculpas.
Começou a testar limites. Colocava pães mais grossos, mais finos, congelados. A torradeira respondia como podia. Às vezes queimava, às vezes tremia. Havia diálogo ali, ainda que elétrico.
Nonato observava com leve preocupação.
— Essa torradeira está esquisita — comentou um dia.
— Finalmente alguém que muda — respondeu Gisa, sem levantar os olhos.
Quando a torradeira afinal queimou de vez, soltando um estalo seco e um cheiro definitivo de despedida, Gisa sentiu um vazio. Não chorou, mas suspirou com respeito. Nonato comprou outra no mesmo dia, igualzinha, mas um modelo novo.
No café seguinte, o pão saiu educadamente. No tempo certo. Sem drama.
Gisa mastigou em silêncio, pensando que talvez não fosse a torradeira o problema. Talvez fosse a falta de coisas que pulam da vida quando menos se espera.
Nonato perguntou se o pão estava bom.
Ela respondeu que sim.
E estava mesmo. Só não tinha graça nenhuma.
(Publicado no Estadão)





Deixe um comentário