por Nelson Rodrigues*
1 — Amigos, temos uma vastíssima experiência amorosa. A história do coração humano começou, precisamente, em Adão e Eva. Era o primeiro casal de terra e com uma vantagem considerável: — Não tinha parentes, não tinha vizinhos, não tinha fornecedores. Alguém poderá objetar (talvez com razão) que a serpente fazia às vezes de sogra, de cunhada, de amiga etc.
2 — Mas o que eu queria dizer é o óbvio ululante, ou seja: — Com Adão e Eva houve o primeiro flerte, o primeiro namoro, o primeiro casamento. Eu ia acrescentar — e a primeira infidelidade. Mas trair com quem? Quero crer que Eva foi, talvez confusa, talvez afoita, uma mulher rigorosamente fiel. Eu imagino o que teria sido, num confortável paraíso, a noite de núpcias, a primeira noite do primeiro casal.
3 — Pois bem. Isso ocorreu há muito tempo. E eu vos digo: essa experiência amorosa, que vem através dos milênios, não nos adianta de nada, nem nos abriu os olhos. O homem, que sabe de tudo, nada sabe de amor. Eu diria, se me permitem, que em amor o homem é tão analfabeto como um pássaro. Ou melhor: o pássaro tem, a seu favor, a vantagem do instinto puro, livre e clarividente. Ao passo que cada um de nós carrega, nas costas, não sei quantos preconceitos, não sei quantos equívocos. Eis a verdade: Falta-nos a espontaneidade de uma cambaxirra. E vou mais longe — o nosso amor é triste.
4 — Olhem em torno. Vejam os namorados que conhecemos. Eles amam em alegria, sim, todo o mundo ama em alegria. Essa tristeza, inerente ao sentimento amoroso, decorre de que não sabemos amar. O homem mais sensível e lúcido é, diante do ser amado, um incerto ou, pior do que isso, um inepto. Ele não sabe o que dizer, o que fazer, o que pensar. O que nós chamamos “romance” é a soma de erros, de equívocos engraçadíssimos. Vejam: — não encontramos a palavra justa, exata, perfeita; não nos ocorre o galanteio que o ser amado desejaria escutar.
5 — E, no entanto, a partir de Adão e Eva, o homem já teve bastante tempo para aprender como gostar, como amar. O amor exige, entre dois seres, uma linguagem própria, um idioma específico. Mas não usamos essa linguagem ou parecemos não entender esse idioma. As pessoas que menos entendem — como se falassem línguas diferentes — são as que se amam. Dir-se-ia que o amor, em vez de unir, separa. Cabe então a pergunta — por quê? É simples. Porque amamos errado, porque não sabemos amar.
6 — A rigor, o momento mais doce do amor é o flerte. O flerte não dilacera, não envenena. Um simples olhar, de uma luz mais viva; um sorriso leve é quanto basta para que dois seres experimentem a esperança de uma comunhão docemente infinita. Mas o flerte — eu prefiro o flerte à paquera — o flerte é, normalmente, uma promessa que não se cumpre. Pois, em seguida, o namoro abre uma fase de perspectivas inquietantes. Fala-se em “briga de namorados”, tão comum e, eu diria mesmo, obrigatória. Mas não são os pequeninos atritos que marcam e vão, pouco a pouco, ferindo e destruindo o sentimento amoroso.
7 — Se o homem soubesse amar não elevaria a voz nunca, jamais discutiria, jamais faria sofrer. Mas ele ainda não aprendeu nada. Dir-se-ia que cada amor é o primeiro e que os amorosos dos nossos dias são tão ingênuos, inexperientes, ineptos, como Adão e Eva. Ninguém, absolutamente, sabe amar. D. Juan havia de ser tão cândido como um namoradinho de subúrbio. Amigos, o amor é um eterno recomeçar. Cada novo amor é como se fosse o primeiro e o último. E é por isso que o homem há de sofrer sempre até o fim do mundo — porque sempre há de amar errado.
*Publicado na FSP em (20/12/1980)





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