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Poeminha de domingo

O medo

Carlos Drummond de Andrade

                        A Antonio Candido

Em verdade temos medo.

Nascemos escuro.

As existências são poucas:

Carteiro, ditador, soldado.

Nosso destino, incompleto.

E fomos educados para o medo.

Cheiramos flores de medo.

Vestimos panos de medo.

De medo, vermelhos rios

vadeamos.

Somos apenas uns homens

e a natureza traiu-nos.

Há as árvores, as fábricas,

doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,

este célebre sentimento,

e o amor faltou: chovia,

ventava, fazia frio em S. Paulo.

Fazia frio em S. Paulo…

Nevava.

O medo, com sua capa,

nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,

meu companheiro moreno.

De nós, de vós; e de tudo.

Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses,

Nosso caminho: traçado.

Por que morrer em conjunto?

E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo,

vem, ó terror das estradas,

susto na noite, receio

de águas poluídas. Muletas

do homem só. Ajudai-nos,

lentos poderes do láudano.

Até a canção medrosa

se parte, se transe e cala-se.

Faremos casas de medo,

duros tijolos de medo,

medrosos caules, repuxos,

ruas só de medo e calma.

E com asas de prudência,

com resplendores covardes,

atingiremos o cimo

de nossa cauta subida.

O medo, com sua física,

tanto produz: carcereiros,

edifícios, escritores,

este poema; outras vidas.

Tenhamos o maior pavor,

Os mais velhos compreendem.

O medo cristalizou-os.

Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,

recuando de olhos acesos.

Nossos filhos tão felizes…

Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.

Depois da cidade, o mundo.

Depois do mundo, as estrelas,

dançando o baile do medo.

set 7, 2025Carlos Mosquera
Em algum lugar6 coisas que os médicos de emergência gostariam que você evitasse

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Carlos Mosquera
7 de setembro de 2025 Uncategorized
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